20 de maio de 2017

Resenha » Dupla Falta, de Lionel Shriver


A resenha de hoje é de um livro escrito por Lionel Shriver, famosa por seus romances de suspense psicológicos. Contando a história de uma tenista apaixonada pelo seu jogo, mas que corre um sério risco de se perder completamente no caminho da própria obsessão, a obra nos oferece assustadoras impressões sobre os conceitos de autocontrole, casamento e sucesso, e nos mostra que perder, em alguns jogos, pode ser a única alternativa para se continuar vencendo - não nas quadras, mas sim, na vida.


Willy Novinsky é uma jovem tenista cuja vida sempre se passou dentro de uma quadra de tênis. Desde os 5 anos de idade se empenha para sempre ser uma vencedora e adquirir posições cada vez melhores no ranking mundial de tênis - o maior símbolo de seu sucesso. Literalmente vive para o esporte, e ao lado de seu treinador Max viaja o mundo para conquistar troféus e vitórias em partidas com outros grandes tenistas como ela.


Esse seu ciclo interminável de busca pela perfeição é ameaçado quando conhece Eric Oberdorf, um tenista em ascensão que desafiará Willy para seu primeiro grande jogo fora das quadras: o do amor. Só que esta não é bem a história de um romance estável e apaixonante; se antes Willy tinha o controle de tudo, agora não tem mais. Após casar-se com Eric, Willy percebe que passou a dormir todas as noites com seu maior adversário e entra numa psicótica necessidade de vencer nas quadras e massacrar seu próprio marido, quando ele começa a se destacar mais do que ela. O medo de se tornar um fracasso foi maior que seu amor - se um dia ele existiu. E é com essa sede de ganhar que Willy se perderá lentamente em sua carreira, seus contratos, sua saúde, e principalmente, em sua própria insanidade.




❝ O acabamento da obra

A autoria é de Lionel Shriver (responsável também por dar vida à história Precisamos falar sobre Kevin) e a edição é muito bem produzida, sem nenhum ponto especial para ser destacado. Publicado pela editora Intrínseca, o livro possui 368 páginas amarelas e grossas, a fonte é de tamanho adequado e as medidas representam o tradicional 16 x 23. Aqui no Brasil foi lançado em 2011, apesar de não ter feito tanto sucesso ou adquirido grande visibilidade nas livrarias. A capa faz alusão ao tema principal da obra e se caracteriza por uma rede de tênis rasgada duas vezes, simbolizando a dupla falta do título. O título, aliás, foi muito bem escolhido em minha opinião, uma vez que Willy de fato comete uma falta dupla em sua própria vida: na carreira e no casamento. A revisão foi ótima e não encontrei quaisquer erros na edição. Um bom trabalho realizado pela editora como um todo.





❝ Por que você deve ler


Dupla Falta é um livro que chama atenção primeiramente pelo peso do nome da autora, que já é sinônimo de bons romances psicológicos para quem está habituado com seu estilo de escrita. A obra de fato cumpre o que promete neste quesito, apesar de ter lá suas particularidades. Em primeiro lugar, recomendo fortemente a leitura da obra para pessoas que gostam de esportes, especialmente o próprio tênis, pois além de se aprender muito, é possível de fato se sentir dentro de campo devido às descrições detalhadas e magistrais da autora. Além disso, a obra dá enfoque quase que total à mente de Willy e da figura feminina em si, debatendo temas que vão desde a presença feminina no mundo dos esportes até o papel esperado que a mulher assuma dentro de um casamento e uma sociedade no geral. Willy é o exemplo da mulher inconformista, que no fundo nunca estará contente com a ideia da tríplice casamento - filhos - velhice, e essa é de fato a atual realidade de grande parte das mulheres do nosso país, por mais que isso ainda seja visto como uma atitude condenável, fora dos "padrões naturais". O amor de Willy pela sua carreira é tão grande que se torna impossível de ser repartido entre outras pessoas ou momentos, até mesmo indo contra sua própria família, cuja crença é de que tênis é diversão e não profissão. Willy tem seus próprios desejos e aspirações e não abre mão disso por nada nem ninguém, e no mundo de hoje, essa é realmente uma característica repleta por coragem e inspiração.




❝ Preste atenção

Como o mundo de Willy é o tênis e o leitor se apropria da realidade do protagonista quando lê um livro, de fato o esporte estará presente em toda a narrativa. Para um leitor que é totalmente leigo no assunto, isso pode ser um problema pois Shriver narra cada jogada disputada com muitos detalhes, isso inclui nomenclaturas especiais que só são conhecidas por quem conhece pelo menos o básico do esporte. Recomendo para aqueles que querem de fato mergulhar na leitura darem uma pesquisada nos termos principais do tênis para não ficarem tão perdidos quando forem ler pra valer, mas para aqueles que não possuem tanta disposição assim, informo que entender esses termos todos não é totalmente necessário, mas aprimora bastante a experiência de leitura. Confesso que fiquei perdida em boa parte das jogadas e depois de um tempo, acho que nem senti mais tanta vontade de tentar compreender aqueles lances todos.




❝ Meu toque pessoal


Lembra das particularidades que citei lá no início? Vamos conversar um pouco sobre elas agora. A questão é que o livro é realmente todo moldado no tênis... isso pode ser um fator super interessante para quem se interessa pelo tema, mas ao mesmo tempo, é um esporte que está um pouco distante do nosso dia-a-dia. Os cenários são repetitivos, pois ou Willy está numa quadra de tênis, ou está na casa de seus pais; ou está numa quadra de tênis, ou está em sua casa com Eric; ou está no clube, ou está disputando algum torneio - numa quadra de tênis. Para mim, a história ficou um pouco exaustiva justamente por essa falta de alternância entre cenários e acontecimentos na vida de Willy, ou até mesmo de um clímax que geralmente é esperado pelo leitor. Do início para o meio, a leitura foi bem arrastada... e do meio para o fim, um pouco melhor pois Willy começou a sofrer algumas transformações. Fiquei ansiosamente aguardando pelo final para ver como seria o desfecho da história, mas não obtive grandes surpresas também - apenas meu conceito sobre Willy mudou drasticamente. Não vou dizer se foi pra melhor ou para pior, mas de qualquer maneira, não acarretou grandes surpresas no enredo em si. O típico "já era de se esperar", vindo de alguém com as atitudes de Willy. Mas ainda assim, enquanto você estiver lendo, não irá esperar por isso tanto assim.


Shriver é uma autora que investe em personagens um pouco obsessivos, e isso não é de todo ruim. Creio que essa seja justamente sua intenção, mostrar lados dos seres humanos que geralmente ficam ocultos, mas que por mais que se escondam, cedo ou tarde aparecerão e se personificarão da pior maneira possível. Os limites da raiva, do egoísmo, da competitividade e de tantas outras imperfeições humanas são expostos como feridas abertas, como características intrínsecas a cada indivíduo. Em alguns momentos, você vai amar Willy e torcer pela sua ascensão. Em outros, vai achá-la cruel e indigna de receber tudo o que tem. Mas é isso que ela é, e fim. Particularmente, mesmo Willy sendo símbolo de "mulher moderna" coisa e tal, não consegui me identificar com sua personalidade em nenhum momento, ou até mesmo sentir simpatia por ela; na verdade, quase sentia pena de Eric, por ter se apaixonado por alguém como Willy (e olha que no começo do livro eu achava que era Eric o exemplo de ser humano mesquinho). Enfim, de qualquer modo, o lema de Willy, "ame a mim, ame meu jogo", deixa claro a essência dos personagens da autora: é assim que somos, e se formos amados, também será pela nossa decadência.





❝ Conclusão


Se eu recomendaria a obra? Talvez. Provavelmente pensaria em outros títulos primeiro. Mas como o próprio título já diz, essa é minha opinião pessoal, e talvez você tenha uma diferente ao ler a obra. Cada experiência pertence a cada indivíduo de modos diferentes. De qualquer modo, se você resolver arriscar a leitura, espero que consiga tirar pelo menos algumas coisinhas como eu, seja a respeito de esportes, ou do próprio ser humano - que pode ser assustadoramente egoísta quando quer e quando lhe convém.


Compre o seu exemplar!

         

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu interesse e disposição em comentar a postagem do blog!

Espero que tenha gostado de sua visita.
Volte sempre! :-)