23 de maio de 2017

Textos parceiros » Quando ela bate à porta (Clara Andrade)

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Era uma sexta-feira chuvosa, eu me aquecia com roupas quentes, tomava um bom chá e lia um ótimo livro. Nada poderia mudar isso, até que algo mudou. Alguém bateu à porta. Quem poderia ser naquela hora, com aquela tempestade? Com um leve mau humor saí de minha zona de conforto e fui até a porta, já sentindo o vento gelado. Ao abri-la me deparei com uma figura um tanto peculiar.

Era uma mulher com os cabelos mais negros que eu já vi, ela tinha uma pele dourada, olhos marcantes e estava completamente encharcada. Apesar da insegurança que reina na sociedade atual, não pude deixar de ser solidário e a deixei entrar. Uma completa estranha, em minha casa, no meio de uma tempestade e já tarde da noite. Quem diria que isso atrapalharia minha leitura noturna? Quanto infortúnio! Tentando não pensar no meu livro, que me encarava culposamente em uma mesa próxima, a ofereci toalhas, um casaco e um chá quente. Ao estar devidamente aquecida, nos acomodamos na sala de estar e então julguei ser a hora de cumprir todas aquelas convenções sociais.

- O que fazia na rua, numa tempestade dessas? - disse isso apenas para dizer algo. Na verdade não estava interessado em saber. Queria mesmo era que aquela estranha saísse da minha casa para que eu pudesse voltar ao meu conforto.
- Curioso! Achei que iria perguntar meu nome - ela respondeu com certa cautela.
- Veja bem - eu resolvi ser sincero - na verdade estava apenas tentando ser educado, mas isso não me diz respeito e não tenho interesse nessas informações - ela me encarou com olhos surpresos e antes que eu pudesse me arrepender do que disse, prossegui - Irei lhe servir uma sopa e em seguida continuarei minha leitura. A chuva não deve demorar a passar - dizendo isso procurei dar atenção ao meu livro e ignorar o máximo possível aquela visitante inesperada.

Ao tomar a sopa, aquela senhorita fazia um barulho irritante. Aquilo só poderia ser um teste. Eu já estava procurando câmeras escondidas na minha casa para desmascarar aquela pegadinha quando ela voltou a falar.

- João! - ela me lançou um olhar de provocação. Como aquela estranha sabia o meu nome? Então algo estranho aconteceu, eu movi os lábios, mas não conseguia emitir nenhum som! Ela continuava a falar, eu a escutava, mas não podia dizer nada e não sei se ela sabia disso. Era um diálogo em que apenas um falava e o outro apenas escutava, mas nunca tive uma conversa tão sincera em toda a minha vida.

- João! - ela repetiu, se levantando e dando pequenas voltas na minha sala de estar - quem diria, hein? Você conseguiu uma bela casa, com belos móveis e uma boa coleção de livros! - "Não toque nos meus livros!" Eu pensei, mas não podia falar, não conseguia, era como se algo me impedisse...
- Quantas conquistas! Quanta pompa! Quantos mundos visitou lendo cada um desses livros? Quantas realidades vivenciou? - ela agora passava a mão pelos móveis, os analisando - Quanta coisa deixou de viver? Quanta coisa para ser vivida? - Nesse momento ela encarou os meus olhos e enxergou além de mim. Senti algo estranho e então tive um sonho, se é que isso faz sentido, porque eu não estava dormindo.

Sonhei que havia acabado de acordar (que loucura!), descia para a cozinha (ficava no primeiro andar) e estava vestindo o meu roupão. Ao chegar lá me deparei com uma cena completamente inesperada e atípica. Três pessoas tomavam café da manhã, com a maior naturalidade possível. Uma dessas pessoas era Maria, uma antiga colega de escola e para ficar mais estranho, ela também usava um roupão e estava com o cabelo bagunçado, assim, meio despenteado. As outras duas pessoas eram crianças. Uma menina que devia ter seus onze anos e um menino que aparentava ter uns sete anos.

- João! Que bom que acordou! Não queria ter te acordado! - Maria me disse.
Novamente eu podia ouvir, mas nada podia falar. Será que ela entendia isso? Se não, não fazia diferença, pois ela continuava falando comigo da mesma forma.
- Eu tive um sonho estranho! - disse Maria e então eu tive um sonho dentro do sonho, acho que era esse tal sonho dela.

Estávamos, eu e Maria em uma praia muito linda e encarávamos o mar. Que engraçado! João e Maria! Seria mais estranho ainda se meu nome fosse José. Enfim... Demos as mãos e íamos entrar no mar, mas Maria parou e disse:
- Eu não posso! Eu tenho medo! Não sei nadar! - novamente nada eu podia dizer, já me acostumara a só ouvir, a só receber todas aquelas palavras. Às vezes gostaria de poder falar, mas então percebi duas coisas. A primeira é que às vezes é realmente bom e útil não falar nada, por diversos motivos que não importam agora. A segunda é que eu percebera que para se comunicar não é preciso apenas falar, usar as palavras... existem muitas outras formas. Então Maria continuou sua confissão:

- Mas eu sinto que preciso perder o medo! Preciso aprender nadar! É como se isso fosse salvar minha vida algum dia. - por algum motivo que só Deus sabe, me compadeci e a abracei. Então acordei desse sonho e voltei ao café da manhã com minha adorável família (família?). Maria pareceu ler meus pensamentos, encarou meus olhos e enxergou além de mim. Senti algo estranho e então acordei. Estava sentado naquela poltrona, na sala de estar e aquela mulher estranha que apareceu no meio da tempestade estava me olhando profundamente. A olhando de perto, percebi que ela se parecia muito uma índia. Era como se aquele olhar emitisse muitas informações, como a ancestralidade dela, sua sabedoria e todas as coisas que havia visto. Havia tristeza ali. Eu saberia reconhecer a tristeza em qualquer lugar e ali com certeza havia certa tristeza.

- Pois bem, João! Você voltará a falar, mas só terá uma chance de me fazer a pergunta correta. Ela fez uma pausa dramática para acentuar a importância daquele momento. Comecei a sentir algo diferente, alguma vibração na garanta e então eu pude falar.

- Qual é o seu nome? - a minha voz saiu muito rouca e grave, como se não falasse há dias. Aquela mulher me deu um sorriso que julguei um pouco assustador.

- Meu nome é Mudança.

Senti muita dor! Uma dor que nunca havia sentido antes. Gritei. Gritei e acordei. Exatamente! Se você achava que não podia ficar mais estranho, adivinhe! Eu estava dormindo e tudo aparentemente não passou de um sonho. Depois de me recuperar do choque do despertar, me levantei e fui à cozinha, com meu roupão. Não havia Maria, muito menos crianças lá. Tomei meu café sozinho e de repente a casa pareceu silenciosa demais.

Alguém bateu à porta. Fiquei meio assustado, mas era manhã, o sol brilhava e não estava chovendo. Ao abrir a porta me deparei com Maria, ela mesmo! Uma antiga colega de escola que morava ao lado da minha casa. Ela não vestia roupão, mas estava um pouco descabelada.

- Olá... bem... deixaram essas correspondências na minha casa por engano - automaticamente eu peguei as cartas e quando ela já estava indo embora, a chamei.
- Maria! Você gostaria de tomar um café?
- Não seria algum incômodo? - ela parecia hesitante.
- Claro que não! - eu disse sorrindo - Mi casa su casa - por sorte, por destino, por Deus ou seja lá quem ou que for, ela achou graça naquilo e me deu um sorriso.
- Obrigado!

Agradecer era tudo o que eu precisava fazer e um sorriso era tudo o que eu precisava ganhar.

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